Redistribuição da Riqueza no Contexto de uma Europa Debilitada



1. A economia deve funcionar para as pessoas e não as pessoas para a economia. Não faz sentido criar sistemas económicos que não favoreçam o bem-estar comum, porque, como toda a construção desequilibrada, traz em si mesma as sementes da sua própria destruição. Uma economia que sacrifica milhões para melhorar uma folha de Excel não passa de uma religião sem misericórdia e com contabilistas no lugar dos sacerdotes.

2. Nas últimas décadas verificou-se uma obscena acumulação de riqueza nas mãos de uma minoria. Segundo diversos relatórios internacionais, o 1% mais rico da população mundial concentra uma parcela crescente da riqueza global, enquanto centenas de milhões de pessoas vivem com dificuldades crescentes para pagar habitação, saúde ou educação. Quando uma sociedade permite que alguns adquiram o equivalente económico de pequenos países enquanto famílias trabalhadoras escolhem entre aquecer a casa ou encher o frigorífico, algo está profundamente errado. Já não se trata de capitalismo; aproxima-se mais de uma aristocracia patrimonial com smartphones.

3. Os políticos têm consentido, quando não participado ativamente, nesta concentração de riqueza. Muitos parecem mais empenhados em garantir o próximo cargo numa empresa regulada pelo próprio Estado do que em defender o interesse público. O fenómeno das “portas giratórias” tornou-se tão comum que por vezes é difícil perceber onde acaba o governo e começa o lobby. A democracia transforma-se gradualmente num teatro onde os espectadores votam, mas os patrocinadores escolhem o argumento.

4. Políticos medíocres tomaram decisões que, se não fossem tão sérias, seriam material para comédia. A transição energética é necessária, mas foi frequentemente conduzida sem o planeamento adequado. A Europa investiu fortemente em energias renováveis sem assegurar antecipadamente uma rede de transporte energético robusta e integrada. Em muitos casos, a produção ocorre longe dos centros de consumo, criando estrangulamentos previsíveis e evitáveis. É como encomendar centenas de camiões sem cotruir estradas.
Ao mesmo tempo, parques fotovoltaicos foram instalados em terrenos com potencial agrícola, quando já existem soluções de agrovoltaica que permitem produzir alimentos e energia em simultâneo. Mas essas soluções exigem planeamento de longo prazo, uma atividade exótica para quem pensa apenas até às próximas eleições. O favorecimento de grupos económicos próximos do poder continua a privilegiar rendas garantidas e lucros de curto prazo, enquanto os riscos são frequentemente socializados.


5. As consequências começam a ser visíveis. A indústria automóvel europeia enfrenta desafios crescentes perante a concorrência chinesa e norte-americana. Empresas deslocam investimento para regiões com energia mais barata e menor burocracia. A Alemanha, durante décadas motor económico da Europa, atravessa dificuldades industriais que poucos imaginariam há apenas quinze anos. Entretanto, acumulam-se sinais de desaceleração económica, perda de competitividade e insegurança laboral.
Alguns dirigentes parecem acreditar que os problemas estruturais podem ser resolvidos imprimindo mais dinheiro, emitindo mais dívida ou criando mais regulamentação. É uma estratégia semelhante à de um capitão que, vendo o navio a fazer água, decide pintar o convés.

6. Paralelamente, o envelhecimento demográfico agrava a situação. Em muitos países europeus existem cada vez menos trabalhadores ativos para financiar pensões, sistemas de saúde e apoios sociais. A taxa de fecundidade encontra-se abaixo do nível de reposição populacional em grande parte do continente. O resultado é matemático antes de ser ideológico: menos contribuintes, mais beneficiários e pressões crescentes sobre as finanças públicas.
A grande vantagem histórica da Europa face a outras potências económicas foi o Estado Social. Porém, esse património coletivo está sob pressão constante. Em vez de o reformar de forma inteligente e sustentável, demasiados responsáveis preferem desmontá-lo peça por peça, vendendo o processo como inevitável modernização. A palavra "reforma" tornou-se frequentemente um eufemismo elegante para "redução de direitos".


7. Perante fatores adicionais que aceleram as desigualdades, como a Inteligência Artificial, a automação e a robótica, torna-se imperiosa uma distribuição mais justa da riqueza produzida. Se um algoritmo consegue substituir o trabalho de centenas de pessoas, a sociedade deve discutir quem beneficia desse aumento de produtividade.
A história oferece vários avisos. As elites do Antigo Regime francês estavam convencidas da estabilidade do sistema poucos anos antes da Revolução Francesa. A arrogância tem uma longa tradição de subestimar a paciência dos povos. Hoje, alguns apologistas do chamado tecno-feudalismo parecem acreditar que vigilância digital, controlo algorítmico e concentração económica garantirão estabilidade permanente. A História sugere precisamente o contrário.


8. Cabe ao Estado, porque não é um fim em si mesmo, mas um instrumento da cidadania, assegurar que os que têm muito não tenham poder excessivo e que os que têm pouco não sejam condenados à indignidade. Redistribuir riqueza não significa punir o sucesso nem desvalorizar o mérito. Significa reconhecer que a prosperidade individual depende também de infraestruturas, educação, segurança jurídica, estabilidade política e investimento público construídos coletivamente.


9. Reforça-se assim a tese inicial: a economia tem de estar ao serviço das pessoas. Uma economia equilibrada será mais estável; uma economia justa será mais legítima. Quando os cidadãos deixam de acreditar que o esforço é recompensado e que as regras são iguais para todos, a confiança desaparece. E sem confiança não existe mercado, investimento ou democracia que resista por muito tempo.

Não transformem seres humanos em combustível para alimentar indicadores económicos. As sociedades toleram injustiças durante anos, às vezes décadas. Mas quando finalmente se cansam, a mudança chega quase sempre de forma mais rápida, mais brusca e mais cara do que os governantes julgavam possível.

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