A irritação incontida da direita neoliberal com o caso grego.


Abaixo segue um artigo publicado no Observador pela pena de Helena Matos.
Não resisti a comentar! As minhas intervenções seguem pelo meio do artigo a itálico e em cor azul.
Há três conclusões a tirar do referendo grego:
Se calhar há mais de três, mas vejamos as que apontas.
I) Não se pode negociar com demagogos da mesma forma que se negoceia com quem está disposto a respeitar as regras.
Vale tanto para o governo grego, como para a troika.
II) Aos demagogos os povos não exigem nada antes toleram quase tudo porque os demagogos sobrevivem porque transferem sempre as culpas para os outros.
Os piores demagogos são so que "vendem" a austeridade como o único caminho e acusam de demagogos os que não se deixam levar nos argumentos dos defensores do TINA (There Is no Alternative).
III) Se no poder os demagogos são quase imbatíveis na verdade só lá conseguem chegar porque beneficiam de uma extraordinária tolerância e condescendência por parte dos outros protagonistas.
Gostava de saber que protagonistas são estes. Mas se se está a referir ao povo, fique a saber que mesmo podendo não ser sempre agradável, é assim que funciona a democracia. Num pais civilizado o demagogo que ocupa a cadeira de Primeiro-Ministro já teria rolado, mas é permitido e cito "porque beneficia de uma extraordinária tolerância e condescendência por parte de outros protagonistas". Nestes últimos inclui-se naturalmente o Presidente da República.
A coisa começou mais ou menos assim: eles têm tanta graça. Porque não usam gravata. Porque usam rabo de cavalo. Porque rapam o cabelo. Porque andam de bicicleta. Porque andam de mota. Porque andam de metro. Porque andam. Porque são aplaudidos nas marchas do negócio do politicamente correcto. Porque passam dos restaurantes mais in para os colectivos de okupas. Porque para lá dos seus círculos só vêem roubalheira, negociatas, interesses. Porque nas televisões de dedo espetado dizem que todos os outros são corruptos. Eles claro nunca são corruptos e se por acaso alguém lhes chama a atenção para um financiamento obscuro ou um caso de nepotismo reagem vivamente indignados e exigem desculpas imediatas. É como o patriotismo. Quando eles falam de orgulho nacional, de pátria e de levantar a cabeça quase nos devemos perfilar. Mas se forem os outros a fazer o mesmo discurso está-se diante de velho ranço da direita nacionalista, patrioteira, folclórica para não dizer fascista.
Tudo isto é irrelevante e procura jogar a cartada do ridículo. Mas o que é mesmo ridículo é como certos burocratas, convencidos que são economistas, como certes de fato e gravata e sem nenhuma legitimidade democrática se alcandoram a impor a nações soberanas aquilo que para eles é a verdade absoluta e incontestável. E que mesmo quando à tona vêm evidências da sua corrupção ou da sua imoralidade, agem como se o dedo não lhes estivesse apontado. Se quer que lhe recorde o Sr  Jeoren Dijsselbloem apresentou no seu curriculum um falso mestrado, (aliás como alguns por cá), ou o Sr Junkers e a ajuda que deu a várias empresas para fugir aos impostos enquanto dirigia os destinos do Luxemburgo. É esta a fibra moral de quem acusa os representantes do governo grego de pouco "sérios".
Em relação ao que afirma sobre o orgulho pátrio e de umas vezes ser obrigatório "perfilar" e das outros considerar "ranço da direita", devo lembrá-la que o governo grego terá na sua análise ambas as versões. E fico sem perceber qual das partes defende ou odeia no caso do governo grego. 
Deixe que lhe explique a minha posição: Estou-me nas tintas! O que realmente me importa é de políticos que defendam a soberania do seu país e que não a "vendam" a troco de trinta dinheiros, hipotecando o futuro dos seus cidadãos, para gáudio e benefício de uma Elite que sinceramente, não precisa.
Eles determinam o que é correcto e incorrecto. Mas não só. Garantem também como vão ser as famílias do futuro, as causas do futuro, o futuro em si mesmo. Do berço à cova eles têm uma causa e uma política para cada momento.
Sim, têm valores. O único valor do neoliberalismo resume-se a "Maximização do lucro!"
Eles são os nossos radicais. De esquerda, claro. (Também os há de direita e vão vê-los dentro em breve!)
Sabia que a democracia já foi considerada radical. A verdadeira ainda é. 
Em muitas das universidades são dominantes. Os jornalistas tratam-nos por tu. São tão amorosos não são? Tão inteligentes, tão giros, tão sexys. E depois dizem aquelas coisas sobre as pessoas que não são números, falam de afectos, de virar a página a isto e àquilo sem mais problemas. São adoráveis de facto. Até ao momento em que têm poder.
Sim, porque o exercício do poder faz muita diferença, se é para permitir a "maximização do lucro" ou para contribuir para a felicidade das pessoas. Sim, eu sei que "felicidade" e "pessoas" nas mesma frase é algo radical. Em especial as "pessoas". Não esqueçamos o que a Srª Christine Lagarde do FMI pensa sobre as pessoas através da sua visão neoliberal da economia: para ela as pessoas prejudicam a economia, em especial se vivem demais. E a propósito ela junta-se ao clube de valores aonde estão o Sr Djisselbloem e o Sr Junkers.
Aí percebe-se que não mudaram nada. Continuam na mesma barricada dos outros tempos. Enquanto exigem para si e para os seus resultados um respeito institucional quase sagrado fazem gato-sapato dos seus interlocutores. Desautorizam-nos. Ridicularizam-nos. Fintam-nos. E no fim gritam que é preciso negociar, dialogar, estabelecer pontes.
Deve estar a falar certamente da troika que o que mais desejava era desautorizar, ridicularizar e fintar o governo grego, na esperança que este caísse depressa e fosse substituído por um governo mais dócil, como os anteriores. Enganaram-se. 
Dantes queriam fazer revoluções. Agora têm projectos. A diferença é que nas revoluções arranjavam portas a dentro o seu financiamento: nacionalizavam e confiscavam. Agora exigem ser patrocinados. Como se tudo não passasse de um filme.
Pois aí concordo consigo. É que a direita neoliberal cujo único projecto que conhece é ser patrocinada pelos povos de modo a resolver a crise que criou, não tem valores. Perdeu tudo e acho até que perdeu o que tinha no Banco... Por isso quer mais, quer sempre mais. Tenho de recordar que não foi o governo grego actual que levou o país a uma condição deplorável. Foram os seus heróis neoliberais para salvarem os seus bancos! E o povo e as pessoas que como diz um sábio banqueiro da nossa praça "..ai aguentam, aguentam!"
Desculpem mas neste logro só cai quem quer. E cair uma vez vá que não vá. Duas já tem que se lhe diga e à terceira ou é masoquismo ou estupidez. Como aqui escrevi há algumas horas o referendo que decorreu na Grécia não teria sido considerado aceitável caso não tivesse sido convocado pelo Syriza, tão queriducho que ele é das redacções, dos activistas, das pessoas de causas e de toda aquele gente que vive de teorizar sobre aquilo que os outros devem fazer, dar, garantir… Imaginam o que não se teria dito e escrito caso, por exemplo, em Angola se convocasse um referendo com esta informalidade, para não lhe chamar outra coisa? Já imaginaram a senhora Marine Le Pen a querer referendar numa semaninha algumas daquelas ideias que lhe animam o encéfalo?
Desculpe mas não consegui compreender a sua lógica. É que a mídia instituída não fez outra coisa que não atacar o governo grego e se deixaram que o referendo fosse para a frente é porque estavam convencidos que o "Sim" ía ganhar e com isso se livrariam de vez do Syrisa! Foi um erro de cálculo, muito comum em quem acha que o povo é uma "vaca" que apenas serve para ordenhar até ao abate.
Não, não me vão dizer que há matérias que não são referendáveis. Desde esta semana na Europa referenda-se o que se quiser e nos moldes em que se quiser. Até por exemplo cessar a ajuda à Grécia. Por que hão-de países cujos cidadãos vivem pior que os gregos, pagam mais impostos que os gregos e se reformam mais tarde que os gregos ser “solidários” com os gregos que votam num governo que para cúmulo namora descaradamente com uma Rússia que é uma ameaça directa para segurança de alguns desses países?
Minha querida, nunca concordei tanto consigo! Sim, vamos lá referendar se as pessoas dos diversos países apontados aos gregos como exemplo de trabalho, produtividade e outras nobres qualidades, estão a favor ou contra! É isso mesmo minha querida, referendos já em toda a Europa sobre se havemos salvar os gregos calões ou se os havemos de deixar morrer pela sua ousadia em se rebelarem contra uma troika que só sabe impor austeridade aos pobres.
Mas pense bem antes, afinal aquele sapateiro britânico, em crowdfunding conseguiu já mais de 1 milhão de euros de donativos a favor dos gregos
Devíamos ter pensado nisso antes? Pois devíamos. Mas agora é tarde. O que conta é que o Syriza ganhou na Grécia. E é preciso que isso fique claro: ganhou na Grécia. E tem um mandato para governar a Grécia. Não o dinheiro dos contribuintes europeus e a UE.
Pois é, mas imaginem se os gregos fazem uma auditoria ao dinheiro que lhe dizem ter emprestado e verificam que afinal ele nem chegou à Grécia. !
E os alemães escusam de chorar que nem contribuiram assim tanto, e tem sido bem beneficiados pela desgraça grega.
Se calhar é melhor deixar os rapazinhos radicais tentarem pagar a dívida do jeito deles ou a coisa ainda pode ficar pior!
É dramático a Grécia sair do euro? Para os gregos é, mas se calhar nem é tanto quanto ficar. E antes que estejamos a ver Pablo Iglesias e Marine Le Pen com os mesmos truques em Madrid, Paris e em Bruxelas convém que se esclareça que os votos nos radicais não valem mais que os outros.
Claro que não e segundo a ideologia neoliberal essa é a chatice da democracia. O que vos arrepia o espinhaço não é tanto se são de esquerda ou de direita os que governam, mas antes quem detém o poder.
Se puderem comprar os que nos governam, para vocês é uma maravilha. E essa foi a chatice do governo grego, é que cedo, viram que eles não estavam à venda.
Uma boa lição para si, não acha?

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